Este texto foi premiado no concurso literário MULHER JAPONESA IMIGRANTE - 100 ANOS, promovido pela Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos, em 2008.
A primeira vez que a vi foi na universidade, quando começávamos o curso de Jornalismo no início dos anos 90. Imediatamente, ao vê-la vestida com um exótico uniforme de time de futebol, pensei em três perguntas, nenhuma delas genial, somente óbvias e fruto de curiosidade dos mais próximos. Na verdade, nunca as fiz, mas o tempo me deu a resposta para uma delas.
Como poderia uma pessoa –nascida em Santos - torcer para a Ponte Preta, sem jamais ter conhecido a cidade de Campinas? Como poderia uma mulher, sem se relacionar com ninguém que torcia para o mesmo time, se apaixonar pela Macaca campineira? Como poderia uma mulher, descendente de japoneses, se interessar por um time sem quaisquer vínculos com a colônia ou com a região onde reside?
A única resposta que obtive foi que a paixão pela Ponte Preta nascera naquele momento em que toda criança – por volta dos seis aos oito anos – começa a entender um pouco a dinâmica do futebol. Isso acontecera na passagem dos anos 70 para a década seguinte. E como normalmente a criança escolhe o time que ganha bastante ou sempre chega às finais, ela passou a gostar da equipe do interior do Estado.
A amizade cristalizou ao longo da universidade e depois viemos a trabalhar juntos. Numa segunda-feira, o clima na mesa de trabalho dela era de velório. Pensei: - Um parente morreu!
Ao me aproximar e olhar para ela, percebi de imediato a dor e conectei com uma das páginas do Caderno de Esportes, aberta sobre a mesa. A Ponte Preta havia sido rebaixada para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Foram dias de luto e de silêncio.
A ansiedade diante de um quadro que não se alterava me fez tomar uma decisão. Encostei à mesa de trabalho dela e fiz a promessa: - Não importa aonde, mas nós estaremos no estádio no dia em que a Ponte Preta retornar à Primeira Divisão! A reação foi discreta, um sorriso de canto de boca, típico da cultura trazida de navio por seus avós, oriundos de Okinawa, na primeira metade do século.
Dois anos depois, a Ponte Preta chegou às finais do campeonato. O jogo decisivo seria em Campinas. O adversário, o Náutico, de Recife (PE). Saímos logo cedo, comigo ao volante do automóvel Gol. Como nunca tínhamos ido à Campinas, calculamos mal o tempo de viagem, obrigando-me a acelerar além da conta na rodovia Anhanguera. Os momentos de piloto ocasionaram a chegada de uma correspondência indesejável dois meses depois da partida: uma multa por excesso de velocidade. Preço mínimo pelo que testemunharíamos.
Que sofrimento! Partida equilibrada, muitas discussões, embora fosse jogo de uma torcida só. Ficamos em pé, pois se tornara impossível ver alguma coisa se sentássemos na arquibancada, além do risco de queimaduras diante de uma temperatura de 35 graus que cozinhava o cimento.
O goleiro da Ponte Preta, de nome Fabiano, fez vários milagres e um gol a cinco minutos do final – esqueci-me do autor - selou o resultado em 2 a 2. O empate era suficiente para o retorno à elite do futebol nacional e para provocar histeria generalizada no estádio.
Não a reconheci mais. Pulava como criança, abraçava torcedores e torcedoras que jamais havia visto, queria invadir o campo para apanhar um pedaço de grama como lembrança. Quase nos perdemos. Na volta pela rodovia Anhanguera, ela dormiu sorrindo, extasiada pelo que considerava a maior demonstração de amor que poderia dar pelo time. Para mim, a concretização de uma promessa que selaria definitivamente a amizade.
Faz três anos que não nos encontramos. Quase duas décadas de convivência me ensinaram que a leitura das aparências pouco importa – ou melhor, fortalece preconceitos – diante de uma teia ininterrupta de relações sociais em uma cultura miscigenada e em constante mutação. Outro ensinamento, talvez o mais pragmático de todos, consiste em concluir que não há torcedora mais apaixonada por futebol. Corrigindo: é a torcedora brasileira mais apaixonada de quem poderia sonhar em ser amigo.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
"A Puta da Uniban"
O título acima foi escrito com a missão de nos provocar, caro leitor. E não é de minha autoria. Confesso que havia pensado em alguma bobagem intelectualizada, como “Vestido para os perversos”, mas o nome de um dos vídeos postados no You Tube resolveu a questão. Nada mais direto. Nada mais hipócrita. Nada mais perverso.
Da história da universitária Geysa Arruda, de 20 anos, não me interessa a cor do vestido, se era minissaia ou micro-vestido, os motivos que a levaram a usar a roupa ou onde ela pretendia ir depois da faculdade. O que me assusta são o ambiente acadêmico, o tal reduto do saber no imaginário popular, num plano secundário, mas principalmente o comportamento dos espectadores, como o próprio nome se impõe, de “nível superior”.
Os alunos, funcionários e professores exercitaram a perversidade que assina manifestações de ódio e intolerância em grupo. A moça escapava aos padrões morais. Ela era ou estava diferente daquilo que moralmente deveria ser, na mentalidade dos perversos. E permitia o distanciamento que conforta, mascara e torna a crueldade impessoal: muitos sabiam que a garota estudava lá, mas a maioria não convivia diretamente com ela.

A reação não é nova ou original: humilhação pública contra aquele que representa o que me escapa ao controle moral. Não há entendimento, somente repúdio. A estudante, na visão dos que a chamaram de puta, simbolizava a vulgaridade da mulher-objeto, trazia outro ambiente para o “purismo” do centro do saber. O rótulo de objeto a aproximava de outra marca, que machuca os olhos dos seres humanos ditos normais: a prostituta.
Como puta, não deveria estar ali. Inferior, ela deveria ser confinada aos guetos, aos lares de luz vermelha. Pela transgressão, o carimbo do estigma a ser carregado na face, se quiser permanecer ali, na universidade. Os cruéis reforçam a limpeza da própria consciência.
A violência dos colegas – e mesmo dos desconhecidos, o que não alivia a perversidade – me faz lembrar casos em que inferiorizar ou desumanizar o outro chega às vias de fato. Só que violência psicológica é, normalmente, mais eficiente e danosa do que ataques físicos. Deixa rastros difíceis de detectar. A dor é carregada por dentro, sem que os demais a percebam, a não ser vítima e carrasco.
Qual a diferença entre os estudantes que ameaçaram Geysa de estupro porque acharam que ela parecia uma puta dos também estudantes que espancaram uma empregada doméstica no ponto de ônibus? Eles haviam confundido a moça com uma prostituta e se sentiram no direito de puni-la. Ou queriam reforçar sua superioridade como espécie? Mendigos, prostitutas, índios são invisíveis, ocupam outro patamar de existência. Como ousam conviver, diriam os ícones da perversidade moral?

É neste momento que a lógica da agressão se inverte. A vítima merece ser punida porque transgrediu códigos de conduta. Se não, deve haver algo no passado que a condena à revelia. Quem criou as tais de normas de última hora? Quem as perpetuou? É o caso de um representante da universidade, que ironizou o fato de que as roupas da estudante justificavam a reação violenta em cadeia. A forma como uma pessoa se veste dá o direito às outras de a ameaçarem de agressão ou de submetê-la ao escárnio público? Que tal puxá-la pelos cabelos e arrastá-la para a caverna?
Em sociedades autoritárias, esse direito se estabelece por meio dos que tem poder ou entre os que o rodeiam, submissos por migalhas e isentos de responsabilidade como recompensa. O que se viu na Uniban foi um exemplo de selvageria, com um verniz de autoritarismo, onde se reproduziram valores sem a menor dimensão de suas conseqüências. O alvo, neste sentido, é nada. Ou quase nada, pois se arriscou a desafiar as regras, os padrões estabelecidos – o que nem é o caso. Todos estavam cobertos dos pés à cabeça?
Estigmatizar, carimbar um rótulo na universitária reforça outros dois aspectos. O primeiro é a voracidade do universo masculino. O machismo, inclusive, repetido por mulheres incapazes de ver nela uma semelhante. Falsamente protegidas pelo pensamento de que jamais serão foco da mesma violência. Julgam-se melhores? Ou padecem da tola ingenuidade?

Na perspectiva do macho não-evoluído, a garota com uma roupa provocante é sinônimo de alguém que está disposta a relações sexuais. Como macho, o sujeito se julga no direito de possuir aquilo que entende como sua propriedade, mesmo que provisória. A mulher é um objeto que, portanto, posso pegar quando desejar. Tomar à força, se não puder pagar pela mercadoria. Nada diferente das milhares de mulheres que apanham dos maridos, ou daquelas que morrem nas mãos – ou pelas armas – do que não suportam perder seus brinquedos.
A história de Geysa se completa com o triste papel de segmentos da mídia. Pode ser como instrumento tecnológico involuntário, como os vídeos do episódio no You Tube. Pode ser como caixa de ressonância do caso. A universitária freqüentou programas de TV e deu diversas entrevistas. O que se viu – salvo exceções – foi um debate raso sobre o tamanho de um vestido que uma mulher pode usar. Novamente, o autoritarismo travestido de opinião descompromissada. Quem tem o direito de ditar o tamanho da roupa de alguém? O que se ditará a seguir?
Perdeu-se – como era previsto – a oportunidade de se aprofundar o diálogo sobre comportamentos sociais e valores que permearam esta história. Ficamos apenas na superfície da questão. Como espetáculo de mídia, Geysa Arruda é perfeita. Servirá como vítima e será esquecida em 15 dias.
Os responsáveis se colocarão também como vítimas. Provavelmente, eles vão expelir – cínica ou cegamente – o olhar de quem não fez algo errado. Apenas puniram o diferente, o sujeito que não é imagem e semelhança. Pior: a pessoa que escancara aquilo que muitos desejariam ser ou que não tem coragem de fazer.
Da história da universitária Geysa Arruda, de 20 anos, não me interessa a cor do vestido, se era minissaia ou micro-vestido, os motivos que a levaram a usar a roupa ou onde ela pretendia ir depois da faculdade. O que me assusta são o ambiente acadêmico, o tal reduto do saber no imaginário popular, num plano secundário, mas principalmente o comportamento dos espectadores, como o próprio nome se impõe, de “nível superior”.
Os alunos, funcionários e professores exercitaram a perversidade que assina manifestações de ódio e intolerância em grupo. A moça escapava aos padrões morais. Ela era ou estava diferente daquilo que moralmente deveria ser, na mentalidade dos perversos. E permitia o distanciamento que conforta, mascara e torna a crueldade impessoal: muitos sabiam que a garota estudava lá, mas a maioria não convivia diretamente com ela.

A reação não é nova ou original: humilhação pública contra aquele que representa o que me escapa ao controle moral. Não há entendimento, somente repúdio. A estudante, na visão dos que a chamaram de puta, simbolizava a vulgaridade da mulher-objeto, trazia outro ambiente para o “purismo” do centro do saber. O rótulo de objeto a aproximava de outra marca, que machuca os olhos dos seres humanos ditos normais: a prostituta.
Como puta, não deveria estar ali. Inferior, ela deveria ser confinada aos guetos, aos lares de luz vermelha. Pela transgressão, o carimbo do estigma a ser carregado na face, se quiser permanecer ali, na universidade. Os cruéis reforçam a limpeza da própria consciência.
A violência dos colegas – e mesmo dos desconhecidos, o que não alivia a perversidade – me faz lembrar casos em que inferiorizar ou desumanizar o outro chega às vias de fato. Só que violência psicológica é, normalmente, mais eficiente e danosa do que ataques físicos. Deixa rastros difíceis de detectar. A dor é carregada por dentro, sem que os demais a percebam, a não ser vítima e carrasco.
Qual a diferença entre os estudantes que ameaçaram Geysa de estupro porque acharam que ela parecia uma puta dos também estudantes que espancaram uma empregada doméstica no ponto de ônibus? Eles haviam confundido a moça com uma prostituta e se sentiram no direito de puni-la. Ou queriam reforçar sua superioridade como espécie? Mendigos, prostitutas, índios são invisíveis, ocupam outro patamar de existência. Como ousam conviver, diriam os ícones da perversidade moral?

É neste momento que a lógica da agressão se inverte. A vítima merece ser punida porque transgrediu códigos de conduta. Se não, deve haver algo no passado que a condena à revelia. Quem criou as tais de normas de última hora? Quem as perpetuou? É o caso de um representante da universidade, que ironizou o fato de que as roupas da estudante justificavam a reação violenta em cadeia. A forma como uma pessoa se veste dá o direito às outras de a ameaçarem de agressão ou de submetê-la ao escárnio público? Que tal puxá-la pelos cabelos e arrastá-la para a caverna?
Em sociedades autoritárias, esse direito se estabelece por meio dos que tem poder ou entre os que o rodeiam, submissos por migalhas e isentos de responsabilidade como recompensa. O que se viu na Uniban foi um exemplo de selvageria, com um verniz de autoritarismo, onde se reproduziram valores sem a menor dimensão de suas conseqüências. O alvo, neste sentido, é nada. Ou quase nada, pois se arriscou a desafiar as regras, os padrões estabelecidos – o que nem é o caso. Todos estavam cobertos dos pés à cabeça?
Estigmatizar, carimbar um rótulo na universitária reforça outros dois aspectos. O primeiro é a voracidade do universo masculino. O machismo, inclusive, repetido por mulheres incapazes de ver nela uma semelhante. Falsamente protegidas pelo pensamento de que jamais serão foco da mesma violência. Julgam-se melhores? Ou padecem da tola ingenuidade?

Na perspectiva do macho não-evoluído, a garota com uma roupa provocante é sinônimo de alguém que está disposta a relações sexuais. Como macho, o sujeito se julga no direito de possuir aquilo que entende como sua propriedade, mesmo que provisória. A mulher é um objeto que, portanto, posso pegar quando desejar. Tomar à força, se não puder pagar pela mercadoria. Nada diferente das milhares de mulheres que apanham dos maridos, ou daquelas que morrem nas mãos – ou pelas armas – do que não suportam perder seus brinquedos.
A história de Geysa se completa com o triste papel de segmentos da mídia. Pode ser como instrumento tecnológico involuntário, como os vídeos do episódio no You Tube. Pode ser como caixa de ressonância do caso. A universitária freqüentou programas de TV e deu diversas entrevistas. O que se viu – salvo exceções – foi um debate raso sobre o tamanho de um vestido que uma mulher pode usar. Novamente, o autoritarismo travestido de opinião descompromissada. Quem tem o direito de ditar o tamanho da roupa de alguém? O que se ditará a seguir?
Perdeu-se – como era previsto – a oportunidade de se aprofundar o diálogo sobre comportamentos sociais e valores que permearam esta história. Ficamos apenas na superfície da questão. Como espetáculo de mídia, Geysa Arruda é perfeita. Servirá como vítima e será esquecida em 15 dias.
Os responsáveis se colocarão também como vítimas. Provavelmente, eles vão expelir – cínica ou cegamente – o olhar de quem não fez algo errado. Apenas puniram o diferente, o sujeito que não é imagem e semelhança. Pior: a pessoa que escancara aquilo que muitos desejariam ser ou que não tem coragem de fazer.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
O hino dos autoritários
Quando era criança, tive aulas de duas disciplinas, marcadas como símbolos da interferência do regime militar na educação: Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB). As matérias, como a maioria das humanas, não eram atraentes para os alunos. Exigiam memorização, pouco se conectavam com a realidade contemporânea e eram apresentadas em uma linguagem rebuscada demais para que um moleque de 12,13 anos pudesse compreender.
Ao pensar em conexão com a realidade, não me refiro a esta visão utilitarista que permeia as relações educacionais de hoje, onde tudo tem que servir para algo, imediatamente. Tudo tem que ser medido de forma quantitativa, como um caixa de supermercado. Alunos e professores perdem seu lado humano e passam a vomitar informações que cheiram a um idioma incompreensível, principalmente para os próprios.
Seríamos ratos de laboratório ou corpos mecânicos desprovidos de sentimentos e de sensações, incapazes de absorver conceitos abstratos, valores que – às vezes – só se manifestam de longo prazo?
Além destas aulas, havia outra forma de disciplinar os estudantes, dar a eles – na ótica da escola – valores para toda a vida. Uma delas era cantar o Hino Nacional no pátio, pelo menos uma vez por semana. Assim, os alunos dariam valor à Pátria mãe gentil, seriam melhores cidadãos, seres humanos dignos diante de um futuro melhor (todos os clichês reunidos numa frase só!!!).

Nunca se pensou em trabalhar o significado das palavras – de outra época – presentes na letra musical. Nunca se pensou em debater o contexto no qual o Hino foi escrito e musicado. Nunca se pensou em situar para os alunos quem foram os autores e assim por diante. Cobrava-se disciplina na fila e a letra na ponta da língua. Ah, e a mão direita no peito, como símbolo de amor ao Brasil.
A estupidez deste momento escolar me veio à lembrança quando li que a Câmara Municipal de Santos aprovou – em segunda discussão – projeto de lei que determina que os alunos da rede municipal de ensino cantem os hinos nacional e da cidade. A sessão “cívica” tem que acontecer uma vez por semana.
Em entrevista ao jornal A Tribuna, o vereador Antônio Carlos Banha Joaquim, autor do projeto, argumentou que cantar o hino “aprimora nossa cidadania.” Será que declamar duas letras musicais a cada sete dias nos torna cidadãos melhores?
O ato de cantar – incluindo os trechos que muitos não entendem - nos torna mais brasileiros? Ou mais patriotas? De que pátria falamos? Dos 11 jogadores perfilados em campo, vestidos de camisa amarela ou azul, balbuciando palavras antes de correr 90minutos atrás da bola? Ou falamos, por exemplo, dos vereadores que cantavam animados quando a Câmara Federal aprovou o aumento no número de vagas no Poder Legislativo local?

Sempre desconfiei do nosso patriotismo e da nossa capacidade de falar em cidadania. O patriotismo à brasileira se manifesta por competição. É latente nos esportes quando algum atleta brasileiro – milionário ou abnegado – entra na arena com chances de vitória, mesmo que a infra-estrutura que o apóie esteja fora daqui. Patriotismo que se esvazia na derrota, pela resignação e reclamação coletivas ou pelo linchamento público do atleta.
Surge também quando um filme brasileiro concorre ao Oscar, ainda que seja pouco visto e debatido, ou quando um ator faz filmes em Hollywood. É sinal de evolução. Precisamos da chancela externa para assinar o atestado de qualidade.
Por que, diferente de outras culturas, o patriotismo não se manifesta nas figuras políticas? O complexo de vira-latas esconde a distância entre o poder e os comuns ao longo da história nacional?
Os hinos nas escolas não alteram também o autoritarismo que permeia os processos educacionais. Só o reforçam, estabelecem hierarquia sem justificativa, reprimem sem explicar, estimulam a “decoreba” sem reflexão.
A escola, em linhas gerais, não forma para a cidadania, forma para o consumo. Reproduz – sem criticidade – a dinâmica social do mundo lá fora, rezando a cartilha mercadológica, se sequer pensar se esta postura tem pontos positivos.
Cantar os hinos na escola, após uma canetada legislativa, é um ato autoritário, travestido de proposta de cidadania. Obriga-se um sujeito a reproduzir uma ação sem que ele dimensione o ato. Alguém mais otimista poderia dizer: - Ainda bem que é só o hino! A História está repleta de casos de violência extrema com início em “propostas educacionais” para as crianças.

Novamente, o topo da pirâmide se senta sobre o livro da moralidade para assegurar que valores sejam reproduzidos, sem a liberdade de escolhê-los. Não se trata de educação, mas de doutrinar a mente e a alma do sujeito, de pouca idade e sem possibilidades de se proteger deste discurso.
Vamos supor que a lei venha carregada de boa intenção. Mas ainda me parece uma atitude desconectada da realidade dentro e fora das escolas. Se entrarmos na discussão relativista dos valores no universo escolar, os hinos pouco acrescentam, pois não faz cócegas no gesso que endurece e paralisa os métodos atuais de ensino, impregnados por volume de conteúdos e ausentes de interpretação sobre eles.
Cantar os hinos é outra mão de verniz no tradicionalismo que cerca o mundo da educação escolar. É o OSPB, em outra proporção, nos pátios de hoje.
È possível apostar que as escolas – até por ligações políticas do Poder Executivo – não questionarão a ideia. Seguirão a lei, sem debatê-la. Depende das equipes pedagógicas ignorá-la ou cumpri-la. Por estas bandas, também valem as leis que pegam e as que não pegam. Quem vai receber a visita de um fiscal da Prefeitura para verificar se os alunos cantaram os hinos naquela semana?
Ao pensar em conexão com a realidade, não me refiro a esta visão utilitarista que permeia as relações educacionais de hoje, onde tudo tem que servir para algo, imediatamente. Tudo tem que ser medido de forma quantitativa, como um caixa de supermercado. Alunos e professores perdem seu lado humano e passam a vomitar informações que cheiram a um idioma incompreensível, principalmente para os próprios.
Seríamos ratos de laboratório ou corpos mecânicos desprovidos de sentimentos e de sensações, incapazes de absorver conceitos abstratos, valores que – às vezes – só se manifestam de longo prazo?
Além destas aulas, havia outra forma de disciplinar os estudantes, dar a eles – na ótica da escola – valores para toda a vida. Uma delas era cantar o Hino Nacional no pátio, pelo menos uma vez por semana. Assim, os alunos dariam valor à Pátria mãe gentil, seriam melhores cidadãos, seres humanos dignos diante de um futuro melhor (todos os clichês reunidos numa frase só!!!).

Nunca se pensou em trabalhar o significado das palavras – de outra época – presentes na letra musical. Nunca se pensou em debater o contexto no qual o Hino foi escrito e musicado. Nunca se pensou em situar para os alunos quem foram os autores e assim por diante. Cobrava-se disciplina na fila e a letra na ponta da língua. Ah, e a mão direita no peito, como símbolo de amor ao Brasil.
A estupidez deste momento escolar me veio à lembrança quando li que a Câmara Municipal de Santos aprovou – em segunda discussão – projeto de lei que determina que os alunos da rede municipal de ensino cantem os hinos nacional e da cidade. A sessão “cívica” tem que acontecer uma vez por semana.
Em entrevista ao jornal A Tribuna, o vereador Antônio Carlos Banha Joaquim, autor do projeto, argumentou que cantar o hino “aprimora nossa cidadania.” Será que declamar duas letras musicais a cada sete dias nos torna cidadãos melhores?
O ato de cantar – incluindo os trechos que muitos não entendem - nos torna mais brasileiros? Ou mais patriotas? De que pátria falamos? Dos 11 jogadores perfilados em campo, vestidos de camisa amarela ou azul, balbuciando palavras antes de correr 90minutos atrás da bola? Ou falamos, por exemplo, dos vereadores que cantavam animados quando a Câmara Federal aprovou o aumento no número de vagas no Poder Legislativo local?

Sempre desconfiei do nosso patriotismo e da nossa capacidade de falar em cidadania. O patriotismo à brasileira se manifesta por competição. É latente nos esportes quando algum atleta brasileiro – milionário ou abnegado – entra na arena com chances de vitória, mesmo que a infra-estrutura que o apóie esteja fora daqui. Patriotismo que se esvazia na derrota, pela resignação e reclamação coletivas ou pelo linchamento público do atleta.
Surge também quando um filme brasileiro concorre ao Oscar, ainda que seja pouco visto e debatido, ou quando um ator faz filmes em Hollywood. É sinal de evolução. Precisamos da chancela externa para assinar o atestado de qualidade.
Por que, diferente de outras culturas, o patriotismo não se manifesta nas figuras políticas? O complexo de vira-latas esconde a distância entre o poder e os comuns ao longo da história nacional?
Os hinos nas escolas não alteram também o autoritarismo que permeia os processos educacionais. Só o reforçam, estabelecem hierarquia sem justificativa, reprimem sem explicar, estimulam a “decoreba” sem reflexão.
A escola, em linhas gerais, não forma para a cidadania, forma para o consumo. Reproduz – sem criticidade – a dinâmica social do mundo lá fora, rezando a cartilha mercadológica, se sequer pensar se esta postura tem pontos positivos.
Cantar os hinos na escola, após uma canetada legislativa, é um ato autoritário, travestido de proposta de cidadania. Obriga-se um sujeito a reproduzir uma ação sem que ele dimensione o ato. Alguém mais otimista poderia dizer: - Ainda bem que é só o hino! A História está repleta de casos de violência extrema com início em “propostas educacionais” para as crianças.

Novamente, o topo da pirâmide se senta sobre o livro da moralidade para assegurar que valores sejam reproduzidos, sem a liberdade de escolhê-los. Não se trata de educação, mas de doutrinar a mente e a alma do sujeito, de pouca idade e sem possibilidades de se proteger deste discurso.
Vamos supor que a lei venha carregada de boa intenção. Mas ainda me parece uma atitude desconectada da realidade dentro e fora das escolas. Se entrarmos na discussão relativista dos valores no universo escolar, os hinos pouco acrescentam, pois não faz cócegas no gesso que endurece e paralisa os métodos atuais de ensino, impregnados por volume de conteúdos e ausentes de interpretação sobre eles.
Cantar os hinos é outra mão de verniz no tradicionalismo que cerca o mundo da educação escolar. É o OSPB, em outra proporção, nos pátios de hoje.
È possível apostar que as escolas – até por ligações políticas do Poder Executivo – não questionarão a ideia. Seguirão a lei, sem debatê-la. Depende das equipes pedagógicas ignorá-la ou cumpri-la. Por estas bandas, também valem as leis que pegam e as que não pegam. Quem vai receber a visita de um fiscal da Prefeitura para verificar se os alunos cantaram os hinos naquela semana?
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
O muito e o pouco
Come-se muito. Nutre-se pouco.
Fazemos muito sexo. Fazemos pouco amor.
Ficamos muito. Namoramos pouco.
Julgamos muito. Compreendemos pouco.
Rezamos muito. Agimos pouco.
Falamos muito. Ouvimos pouco o outro.
Temos muitos colegas. Poucos são amigos.
Diagnosticamos muito. Intervimos pouco.
Cultuamos muito o corpo. Pensamos pouco sobre o mundo.
A aparência vale muito. A essência pouco importa.
Desprezamos muito os desconhecidos. Poucos nos cumprimentamos.
Exigimos muitos direitos. Exercitamos poucos deveres.
Vemos muita novela. Lemos poucos livros.
Corremos muito. Chegamos a poucos lugares.
Muitos se dizem pioneiros. Poucos são originais.
Conversamos muito na Internet. Dialogamos pouco ao vivo.
Somos muito dependentes da tecnologia. Poucos vivemos “in natura”.
Valorizamos muito o status. Poucos conhecemos os invisíveis.
Viajamos muito. Pouco absorvemos outras culturas.
Conectamos em muitas redes sociais. Poucas relações são coletivas.
Compramos muito. Oferecemos pouco.
Vivemos muito o presente. Pouco aprendemos com o passado ou planejamos o futuro.
Prometemos muito. Fazemos pouco.
Produzimos muito. Colhemos poucos frutos.
Engolimos muitas informações. Poucas são digeridas.
Vomitamos muitas informações. Poucas têm a dimensão adequada.
Tomamos muitos remédios. Pouco nos interessamos pela cura.
Vamos muito ao mágico-terapeuta. Pouco mudamos o estilo de vida.
Muito comentamos sobre políticos corruptos. Pouco lutamos contra a desonestidade privada.
Muito moralismo. Pouca ação ética.
Excluímos muito. Toleramos pouco o diferente.
Na balança, vivemos muito mais tempo. Sobrevivemos sempre. Morremos sem perceber.
Fazemos muito sexo. Fazemos pouco amor.
Ficamos muito. Namoramos pouco.
Julgamos muito. Compreendemos pouco.
Rezamos muito. Agimos pouco.
Falamos muito. Ouvimos pouco o outro.
Temos muitos colegas. Poucos são amigos.
Diagnosticamos muito. Intervimos pouco.
Cultuamos muito o corpo. Pensamos pouco sobre o mundo.
A aparência vale muito. A essência pouco importa.
Desprezamos muito os desconhecidos. Poucos nos cumprimentamos.
Exigimos muitos direitos. Exercitamos poucos deveres.
Vemos muita novela. Lemos poucos livros.
Corremos muito. Chegamos a poucos lugares.
Muitos se dizem pioneiros. Poucos são originais.
Conversamos muito na Internet. Dialogamos pouco ao vivo.
Somos muito dependentes da tecnologia. Poucos vivemos “in natura”.
Valorizamos muito o status. Poucos conhecemos os invisíveis.
Viajamos muito. Pouco absorvemos outras culturas.
Conectamos em muitas redes sociais. Poucas relações são coletivas.
Compramos muito. Oferecemos pouco.
Vivemos muito o presente. Pouco aprendemos com o passado ou planejamos o futuro.
Prometemos muito. Fazemos pouco.
Produzimos muito. Colhemos poucos frutos.
Engolimos muitas informações. Poucas são digeridas.
Vomitamos muitas informações. Poucas têm a dimensão adequada.
Tomamos muitos remédios. Pouco nos interessamos pela cura.
Vamos muito ao mágico-terapeuta. Pouco mudamos o estilo de vida.
Muito comentamos sobre políticos corruptos. Pouco lutamos contra a desonestidade privada.
Muito moralismo. Pouca ação ética.
Excluímos muito. Toleramos pouco o diferente.
Na balança, vivemos muito mais tempo. Sobrevivemos sempre. Morremos sem perceber.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Rio, um cheque em branco
As cenas de violência, com 22 mortos confirmados pela Polícia no último final de semana, causam aquele impacto momentâneo, o leve toque de surpresa numa rodinha de conversa entre amigos ou entre colegas de trabalho. Tempere com um comentário genérico sobre a violência no Rio de Janeiro.
Mas quem poderia se surpreender com disputas por territórios nos morros, tiroteios entre facções e policiais, com requintes hollywoodianos de helicóptero abatido e dois policiais carbonizados?
No cenário de caos revisitado, os engravatados – eleitos ou indicados - correram para amenizar o problema, abafar os danos que eles conhecem de antemão. São, em parte, os mesmos sujeitos que asseguram – de mãos e pés juntos como uma criança em frente ao sacerdote – que o Rio de Janeiro estará “limpo” em sete anos para os Jogos Olímpicos.
De que forma será feita a limpeza? Permanecerá a separação entre os dois Rios? A cidade do asfalto, de cartão postal, garota de Ipanema e Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara, se repetirmos o trecho da letra musical? Ou o Rio de Janeiro dos morros, do Estado Independente e dos subúrbios sem infra-estrutura?
A cidade do samba, futebol, mulatas e caipirinha será trabalhada como clichê para levar brilho os olhos dos gringos em hotéis cinco estrelas? Quais políticas públicas foram anunciadas para o município e região? Como será empregado o dinheiro? E quem fiscalizará?

A preocupação atual, ouvindo o discurso dos cartolas-políticos e dos políticos-cartolas, é de esquecer a experiência dos Jogos Pan-Americanos, e não aprender com ela. O evento custou dez vezes mais do que o previsto (o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Artur Nuzman, justificou ao jornal Folha de S.Paulo que o projeto foi refeito), instalações estão abandonadas e as que seguem em uso não atendem padrões olímpicos internacionais.
Um repórter foi chamado de estraga-prazeres por um dirigente quando fez uma destas perguntas. No mesmo dia, outro político afrontou nossa inteligência quando afirmou que o Rio de Janeiro foi escolhido porque o povo brasileiro era alegre e feliz. Lamento pela melancolia excessiva dos moradores de Chicago, Madri e Tóquio. Vencemos a corrida da felicidade.
O pensamento único é ditatorial, intolerante. Ele se apóia, neste caso, no patriotismo de ocasião, latente somente em situações ligadas ao esporte, quando somos convidados a nos comportar como torcedores de arquibancada no domingo de clássico. E os bajuladores de microfone em punho reproduzem o ufanismo, o maniqueísmo de quem derrotou os Estados Unidos de Obama, somado aos rótulos da ausência de contexto.
Por que precisamos abrir mão de uma análise criteriosa apenas para carregar o título de primeira sede da América do Sul? O cheque em branco é uma assinatura insana ou uma possibilidade de segunda chance? Ou mera subserviência com olhar de mercado?
O bangue-bangue com elementos de cinema americano do último final de semana não é de surpreender até quem teve contato com a cidade na semana passada. Se um sujeito assim existir, viu a panela de pressão liberar fumaça com os problemas dos trens, fato também conhecido de todos. No começo do ano, funcionários da empresa concessionária foram gravados enquanto agrediam passageiros para que entrassem nos vagões.
Sardinhas – cidadãos vistos como animais – que se espremiam em latas sobre trilhos. Alguém foi punido diante de um fato indesculpável? Apenas os funcionários foram demitidos? E quem deu a ordem? A vida seguiu na Central do Brasil.
O Rio de Janeiro estará preparado para os Jogos Olímpicos? A competição não dá lucro financeiro. Mas costuma gerar dividendos em outros setores, como turismo, se houver planejamento antes, durante e depois da festa.
Há casos como Barcelona, que aproveitou o evento para reurbanizar a cidade e atrair milhões de turistas por ano. Mas há exemplos como Atenas, cujas instalações esportivas pouco são aproveitadas, e Pequim, onde a maior arena, o Ninho do Pássaro, só atrai mesmo aves ou outros bichos.

A violência no Rio não é apenas uma situação localizada. Não se trata somente de enfrentar traficantes naqueles duelos que cansamos de assistir no noticiário. Como lidar, por exemplo, com as milícias? É o comando azul, e não mais vermelho, como explicam os especialistas em segurança pública, que domina áreas da capital carioca.
Como explicou a antropóloga Alba Zaluar, em artigo recente, as milícias se aproximam do aeroporto e da Baía de Guanabara. Operam com base na política de controle de armas, mas também expulsam aqueles que pensam diferente.
Com a decisão irreversível dos engravatados, torço para que os sete anos sejam suficientes para redesenhar o Rio. Transporte, saúde pública (lembram dos hospitais lotados, sem médicos, no noticiário de tempos em tempos?) e violência são problemas estruturais de uma cidade que receberá milhões de pessoas em um período de 15 dias. O Rio de Janeiro estará pronto ou se manterá dividido em irmãos univitelinos?
Ontem, Rosa Maria Barbosa estava revoltada com a perda do sobrinho, Edney Canazaro de Oliveira, de 29 anos. Ele era um dos ocupantes do helicóptero abatido no último final de semana na cidade. Rosa disse ao repórter Sérgio Torres, da Folha de S.Paulo. “Eles fazem o teatro deles e nós pagamos. Existe verba para a Copa, Olimpíada, mas para equipar a polícia não tem verba. Como mandam para a área de risco um helicóptero que não é blindado? Isso é palhaçada!”
O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, não falou sobre o assunto. Apenas disse - com a obviedade dos alheios - que outros choques entre traficantes vão ocorrer.

Mesmo sabendo que as declarações da tia do PM foram feitas sob emoção da perda do sobrinho, como não pensar nas palavras dela? Aqueles que choraram para as câmeras após o anúncio dos Jogos Olímpicos mais seu círculo de bajuladores com histórico nocivo serão capazes de desmentir esta senhora? O talão de cheques está no nome deles.
Mas quem poderia se surpreender com disputas por territórios nos morros, tiroteios entre facções e policiais, com requintes hollywoodianos de helicóptero abatido e dois policiais carbonizados?
No cenário de caos revisitado, os engravatados – eleitos ou indicados - correram para amenizar o problema, abafar os danos que eles conhecem de antemão. São, em parte, os mesmos sujeitos que asseguram – de mãos e pés juntos como uma criança em frente ao sacerdote – que o Rio de Janeiro estará “limpo” em sete anos para os Jogos Olímpicos.
De que forma será feita a limpeza? Permanecerá a separação entre os dois Rios? A cidade do asfalto, de cartão postal, garota de Ipanema e Cristo Redentor de braços abertos sobre a Guanabara, se repetirmos o trecho da letra musical? Ou o Rio de Janeiro dos morros, do Estado Independente e dos subúrbios sem infra-estrutura?
A cidade do samba, futebol, mulatas e caipirinha será trabalhada como clichê para levar brilho os olhos dos gringos em hotéis cinco estrelas? Quais políticas públicas foram anunciadas para o município e região? Como será empregado o dinheiro? E quem fiscalizará?

A preocupação atual, ouvindo o discurso dos cartolas-políticos e dos políticos-cartolas, é de esquecer a experiência dos Jogos Pan-Americanos, e não aprender com ela. O evento custou dez vezes mais do que o previsto (o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Artur Nuzman, justificou ao jornal Folha de S.Paulo que o projeto foi refeito), instalações estão abandonadas e as que seguem em uso não atendem padrões olímpicos internacionais.
Um repórter foi chamado de estraga-prazeres por um dirigente quando fez uma destas perguntas. No mesmo dia, outro político afrontou nossa inteligência quando afirmou que o Rio de Janeiro foi escolhido porque o povo brasileiro era alegre e feliz. Lamento pela melancolia excessiva dos moradores de Chicago, Madri e Tóquio. Vencemos a corrida da felicidade.
O pensamento único é ditatorial, intolerante. Ele se apóia, neste caso, no patriotismo de ocasião, latente somente em situações ligadas ao esporte, quando somos convidados a nos comportar como torcedores de arquibancada no domingo de clássico. E os bajuladores de microfone em punho reproduzem o ufanismo, o maniqueísmo de quem derrotou os Estados Unidos de Obama, somado aos rótulos da ausência de contexto.
Por que precisamos abrir mão de uma análise criteriosa apenas para carregar o título de primeira sede da América do Sul? O cheque em branco é uma assinatura insana ou uma possibilidade de segunda chance? Ou mera subserviência com olhar de mercado?
O bangue-bangue com elementos de cinema americano do último final de semana não é de surpreender até quem teve contato com a cidade na semana passada. Se um sujeito assim existir, viu a panela de pressão liberar fumaça com os problemas dos trens, fato também conhecido de todos. No começo do ano, funcionários da empresa concessionária foram gravados enquanto agrediam passageiros para que entrassem nos vagões.
Sardinhas – cidadãos vistos como animais – que se espremiam em latas sobre trilhos. Alguém foi punido diante de um fato indesculpável? Apenas os funcionários foram demitidos? E quem deu a ordem? A vida seguiu na Central do Brasil.
O Rio de Janeiro estará preparado para os Jogos Olímpicos? A competição não dá lucro financeiro. Mas costuma gerar dividendos em outros setores, como turismo, se houver planejamento antes, durante e depois da festa.
Há casos como Barcelona, que aproveitou o evento para reurbanizar a cidade e atrair milhões de turistas por ano. Mas há exemplos como Atenas, cujas instalações esportivas pouco são aproveitadas, e Pequim, onde a maior arena, o Ninho do Pássaro, só atrai mesmo aves ou outros bichos.
A violência no Rio não é apenas uma situação localizada. Não se trata somente de enfrentar traficantes naqueles duelos que cansamos de assistir no noticiário. Como lidar, por exemplo, com as milícias? É o comando azul, e não mais vermelho, como explicam os especialistas em segurança pública, que domina áreas da capital carioca.
Como explicou a antropóloga Alba Zaluar, em artigo recente, as milícias se aproximam do aeroporto e da Baía de Guanabara. Operam com base na política de controle de armas, mas também expulsam aqueles que pensam diferente.
Com a decisão irreversível dos engravatados, torço para que os sete anos sejam suficientes para redesenhar o Rio. Transporte, saúde pública (lembram dos hospitais lotados, sem médicos, no noticiário de tempos em tempos?) e violência são problemas estruturais de uma cidade que receberá milhões de pessoas em um período de 15 dias. O Rio de Janeiro estará pronto ou se manterá dividido em irmãos univitelinos?
Ontem, Rosa Maria Barbosa estava revoltada com a perda do sobrinho, Edney Canazaro de Oliveira, de 29 anos. Ele era um dos ocupantes do helicóptero abatido no último final de semana na cidade. Rosa disse ao repórter Sérgio Torres, da Folha de S.Paulo. “Eles fazem o teatro deles e nós pagamos. Existe verba para a Copa, Olimpíada, mas para equipar a polícia não tem verba. Como mandam para a área de risco um helicóptero que não é blindado? Isso é palhaçada!”
O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, não falou sobre o assunto. Apenas disse - com a obviedade dos alheios - que outros choques entre traficantes vão ocorrer.

Mesmo sabendo que as declarações da tia do PM foram feitas sob emoção da perda do sobrinho, como não pensar nas palavras dela? Aqueles que choraram para as câmeras após o anúncio dos Jogos Olímpicos mais seu círculo de bajuladores com histórico nocivo serão capazes de desmentir esta senhora? O talão de cheques está no nome deles.
domingo, 18 de outubro de 2009
O carnívoro ao volante
Conheci, ontem, o Mercado Municipal de São Paulo. Um passeio com jeitão familiar, que realizou desejo antigo, o de saborear o famoso sanduíche de mortadela. Mais importante do que o sonho gastronômico de classe média, a visita representou o ponto que faltava para o nascimento deste texto.
Logo na entrada, uma tenda do Greenpeace era o foco. Jovens ocupavam o corredor de camisas ou jalecos verdes, sorrisos no rosto e palavras na ponta da língua. Sempre fui simpático à entidade e às formas de protesto pelo (nos dois sentidos!) planeta. A questão ambiental é vista como oportunismo de retóricos de gravata ou como tema submisso à agenda econômico-financeira do universo corporativo.
Uma moça me atendeu educadamente e me explicou as batalhas atuais e os adversários (alimentos transgênicos, escassez de peixes e relação carne-desmatamento) com propriedade e didatismo. Um abaixo-assinado completava o discurso politizado e coerente daquele momento.

Meia hora depois, resolvi observar como as pessoas reagiam diante da abordagem dos jovens ambientalistas. A maioria evitava contato visual e seguia em frente, rumo aos desejos culinários e de consumo. Dos que paravam, alguns fingiam literalmente prestar atenção, loucos para seguir o destino do grupo anterior, enquanto outros engatavam uma boa conversa sobre questões pertinentes da agenda ambiental nacional e internacional.
Vale a pena uma tenda no Mercado Municipal de São Paulo? Qual será o impacto diante da vida das pessoas que apanharam o folheto com explicações sobre os problemas que envolvem o Greenpeace? Elas mudarão de atitude? Confirmarão teses? Pensarão a respeito do problema? Farão algo em seu cotidiano?
O trabalho dos camisas verdes é fundamental. O exercício de contestação com efeitos midiáticos mais a conversa miúda – individualizada – em locais públicos podem expor a agenda pública em torno do meio ambiente. Pode ser o combustível para ultrapassar as barreiras políticas, econômicas e eleitoreiras que empurram o tema para a rabeira das rodas de discussões. E não falo daquelas conversas de boutique, em que se vomitam medidas hipócritas para parecer moderninho ou descolado.
O problema, no entanto, passa pela ausência de atitude das figuras públicas. Eles são os donos da bola (ou seria um globo?) e das canetas que assinam o futuro próximo. Podemos perceber a inércia estatal, por exemplo, e de nós mesmos diante das campanhas que ocorreram em um passado recente. Pensei em duas delas: o Dia Mundial sem Carro e a Segunda-feira sem Carne.

No primeiro caso, uma terça-feira, o dia pareceu o mesmo. Com os mesmos problemas urbanos. O trânsito estava congestionado, com os motoristas traduzindo sua fúria e sua pressa nas buzinas e nos faróis altos. Os ônibus, carregados de gente espremida como bichos, usaram o tamanho para se impor em avenidas que encolhem a cada financiamento nas concessionárias.
No mundo movido a petróleo, o combustível orgânico via pedais não tem espaço. São manchas que alteram a paisagem. Incomodam porque não poluem. Perturbam porque não fazem barulho. Atrapalham porque são lentas perante a mentalidade do progresso.
Não parecia o Dia Mundial Sem Carro. Confesso que, inclusive por não ter automóvel, havia me esquecido da data. Mas me fez lembrar uma campanha realizada na cidade de Santos, onde moro. Era o Mutirão da Carona. Até a própria Companhia de Engenharia de Tráfego reconheceu o fracasso da iniciativa, pois os carros circulavam na mesma quantidade, velocidade e conduzidos pelos mesmos neuróticos, acompanhados de bancos vazios ou com objetos inanimados.

O protesto contra os automóveis é – obviamente - importante, assim como outras manifestações pela coletividade, como a Bicicletada, realizada em vários lugares do planeta. São instrumentos nos quais a sociedade civil retrata seu descontentamento com uma série de questões que envolvem políticas públicas.
O mundo é dos carros. Cada vez mais veículos unitários. Símbolos do consumo como prática individualizada e individualizante. Outro dia, conversava com um taxista, sujeito que vive do trânsito e para o trânsito. Para puxar conversa, basta criticar de leve um micro-congestionamento.
No alto da sabedoria rodoviária de quem passa 12, 14 horas diárias entre semáforos (mais de 300 na cidade) e passageiros com pressa sem destino definido, o motorista diagnosticou um dos sintomas da doença: mais carros, menos ocupantes. Veículos preocupados com conforto e espaço interno, para quem? Cachorros, sacolas, tranqueiras e afins. Se celular e computador são objetos individuais, por que os carros não seriam?
Às segundas, os carnívoros continuam no poder. A campanha pela redução do consumo de carne segue o mesmo caminho: permanecer restrita às entidades ambientais ou aos grupos anteriormente simpáticos à causa. A matriz alimentar atual são os produtos industrializados e, por influências culturais, nos tornamos ainda mais carnívoros. Seja uma carne saudável ou aquela que traz de brinde a lista de substâncias químicas para criar a aparência saudável!

A campanha não afeta nem os donos de churrascarias, pois a segunda-feira é o dia de folga, depois de um final de semana regado à picanha e maminha no alho.
Enquanto não houver representatividade política, dentro dos instrumentos de poder, sinto que veremos o discurso ambiental amarrado aos ambientalistas. É preciso entrar nas rodas de poder para alterar leis, influenciar grupos e ter instrumentos de pressão.
Como disse um cientista político na TV recentemente, o cidadão pobre é o fator de desequilíbrio numa eleição. Dá para convencer – até 2010 - alguém que mal come carne, precisa lutar pela próxima refeição e anda de ônibus que o problema ambiental é parte da vida dele?
Logo na entrada, uma tenda do Greenpeace era o foco. Jovens ocupavam o corredor de camisas ou jalecos verdes, sorrisos no rosto e palavras na ponta da língua. Sempre fui simpático à entidade e às formas de protesto pelo (nos dois sentidos!) planeta. A questão ambiental é vista como oportunismo de retóricos de gravata ou como tema submisso à agenda econômico-financeira do universo corporativo.
Uma moça me atendeu educadamente e me explicou as batalhas atuais e os adversários (alimentos transgênicos, escassez de peixes e relação carne-desmatamento) com propriedade e didatismo. Um abaixo-assinado completava o discurso politizado e coerente daquele momento.

Meia hora depois, resolvi observar como as pessoas reagiam diante da abordagem dos jovens ambientalistas. A maioria evitava contato visual e seguia em frente, rumo aos desejos culinários e de consumo. Dos que paravam, alguns fingiam literalmente prestar atenção, loucos para seguir o destino do grupo anterior, enquanto outros engatavam uma boa conversa sobre questões pertinentes da agenda ambiental nacional e internacional.
Vale a pena uma tenda no Mercado Municipal de São Paulo? Qual será o impacto diante da vida das pessoas que apanharam o folheto com explicações sobre os problemas que envolvem o Greenpeace? Elas mudarão de atitude? Confirmarão teses? Pensarão a respeito do problema? Farão algo em seu cotidiano?
O trabalho dos camisas verdes é fundamental. O exercício de contestação com efeitos midiáticos mais a conversa miúda – individualizada – em locais públicos podem expor a agenda pública em torno do meio ambiente. Pode ser o combustível para ultrapassar as barreiras políticas, econômicas e eleitoreiras que empurram o tema para a rabeira das rodas de discussões. E não falo daquelas conversas de boutique, em que se vomitam medidas hipócritas para parecer moderninho ou descolado.
O problema, no entanto, passa pela ausência de atitude das figuras públicas. Eles são os donos da bola (ou seria um globo?) e das canetas que assinam o futuro próximo. Podemos perceber a inércia estatal, por exemplo, e de nós mesmos diante das campanhas que ocorreram em um passado recente. Pensei em duas delas: o Dia Mundial sem Carro e a Segunda-feira sem Carne.

No primeiro caso, uma terça-feira, o dia pareceu o mesmo. Com os mesmos problemas urbanos. O trânsito estava congestionado, com os motoristas traduzindo sua fúria e sua pressa nas buzinas e nos faróis altos. Os ônibus, carregados de gente espremida como bichos, usaram o tamanho para se impor em avenidas que encolhem a cada financiamento nas concessionárias.
No mundo movido a petróleo, o combustível orgânico via pedais não tem espaço. São manchas que alteram a paisagem. Incomodam porque não poluem. Perturbam porque não fazem barulho. Atrapalham porque são lentas perante a mentalidade do progresso.
Não parecia o Dia Mundial Sem Carro. Confesso que, inclusive por não ter automóvel, havia me esquecido da data. Mas me fez lembrar uma campanha realizada na cidade de Santos, onde moro. Era o Mutirão da Carona. Até a própria Companhia de Engenharia de Tráfego reconheceu o fracasso da iniciativa, pois os carros circulavam na mesma quantidade, velocidade e conduzidos pelos mesmos neuróticos, acompanhados de bancos vazios ou com objetos inanimados.

O protesto contra os automóveis é – obviamente - importante, assim como outras manifestações pela coletividade, como a Bicicletada, realizada em vários lugares do planeta. São instrumentos nos quais a sociedade civil retrata seu descontentamento com uma série de questões que envolvem políticas públicas.
O mundo é dos carros. Cada vez mais veículos unitários. Símbolos do consumo como prática individualizada e individualizante. Outro dia, conversava com um taxista, sujeito que vive do trânsito e para o trânsito. Para puxar conversa, basta criticar de leve um micro-congestionamento.
No alto da sabedoria rodoviária de quem passa 12, 14 horas diárias entre semáforos (mais de 300 na cidade) e passageiros com pressa sem destino definido, o motorista diagnosticou um dos sintomas da doença: mais carros, menos ocupantes. Veículos preocupados com conforto e espaço interno, para quem? Cachorros, sacolas, tranqueiras e afins. Se celular e computador são objetos individuais, por que os carros não seriam?
Às segundas, os carnívoros continuam no poder. A campanha pela redução do consumo de carne segue o mesmo caminho: permanecer restrita às entidades ambientais ou aos grupos anteriormente simpáticos à causa. A matriz alimentar atual são os produtos industrializados e, por influências culturais, nos tornamos ainda mais carnívoros. Seja uma carne saudável ou aquela que traz de brinde a lista de substâncias químicas para criar a aparência saudável!

A campanha não afeta nem os donos de churrascarias, pois a segunda-feira é o dia de folga, depois de um final de semana regado à picanha e maminha no alho.
Enquanto não houver representatividade política, dentro dos instrumentos de poder, sinto que veremos o discurso ambiental amarrado aos ambientalistas. É preciso entrar nas rodas de poder para alterar leis, influenciar grupos e ter instrumentos de pressão.
Como disse um cientista político na TV recentemente, o cidadão pobre é o fator de desequilíbrio numa eleição. Dá para convencer – até 2010 - alguém que mal come carne, precisa lutar pela próxima refeição e anda de ônibus que o problema ambiental é parte da vida dele?
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Capítulos de uma aula decadente
Ao entrar na biblioteca da universidade, encontrei um ex-aluno. Recém-formado, ele é o típico caso de alguém que estava pronto para exercer sua profissão sem grandes problemas. Boa formação, ético, antenado em questões sociais, preocupado em se atualizar por meio dos estudos. Tanto que estava contente ao saber que, por ter diploma de ensino superior, não precisaria prestar vestibular (palavra meio em desuso, mas que simboliza a ausência de alterações nas políticas do setor). Bastava esperar pela sobra de vagas. O rapaz pretende fazer o curso de Direito, pois havia abandonado a sala de aula após seis meses como professor de escola pública.
A pergunta óbvia: - Por que largou?
A resposta imediata: - Desisti!!! Não dá para trabalhar à noite sob ameaças dos alunos.
Dois dias depois, uma aluna de Jornalismo veio me procurar para tirar dúvidas. Ela pretende fazer uma reportagem sobre Hiperatividade, doença da “moda” nos sistemas de ensino. Aqui vale uma explicação: uso a palavra moda por duas razões.
1) o termo foi banalizado. Muitos falam sobre a doença sem ter a menor ideia dos sintomas e do tratamento. Qualquer criança mais agitada, bagunceira ou que deseja um pouco mais de atenção pode ser classificada como hiperativa. O carimbo na testa que a tornará marginal na escola.
2) as escolas, além de não terem pessoas com formação – em muitos casos – para diagnosticar crianças com problemas de aprendizagem, não as encaminha para um profissional competente. Quando não ocorre o exercício da negação, por meio do acordo velado entre instituição e pais para preservar da imagem da escola.
A aluna estava com dificuldades de conversar com escolas privadas sobre o tema. As equipes pedagógicas relutavam em reconhecer que poderiam ter crianças com o problema em suas classes. Quando admitiam, transferiam a culpa para os pais. No beco sem saída, tocar no assunto significa automaticamente o estigma. Desconfio que o parecer talvez fosse exercício de auto-imagem.

Escolas públicas e privadas são irmãs gêmeas diante de um espelho. Podemos localizar diferenças nos acessórios, nas roupas e, principalmente, na maquiagem, mas ambas sofrem de males semelhantes, diagnosticados por médicos diferentes e com poses idênticas de vítimas.
- Tire esse bicho daí que o problema não é meu!
- O diagnóstico está errado. Vou procurar uma segunda opinião.
Neste sentido, a escola se manifesta pela rejeição ao diferente. Expulsa o sujeito que tenta lutar contra o estado de coisas. Repele quando esconde embaixo de suas carteiras, em seus armários, disfunções que poderiam servir de motor para uma reformulação estrutural.
Em ambos os casos, com mensalidades em caixa ou não, a escola é violenta. Enxota o professor e outros funcionários por se calar diante da violência verbal e física, interna e externa. Peca ao se calar diante de um problema de ordem médica para assegurar o status quo de instituição saudável. Omitir-se é um ato tão ou mais violento quanto assinar embaixo. Ou tomar posição com consciência do erro crasso.

O irônico da cegueira é a teimosia em fingir que enxerga. São muitos pecadores, mas poucos dispostos a se confessar ou se flagelar para “purificar” a escola. O sarcasmo, a acidez na provocação vem, por exemplo, do próprio Ministério da Educação, quando escancara na TV um filme institucional sobre o papel do professor. O tom alegre era previsível, assim como o falso simbolismo globalizante dos depoimentos em vários idiomas.
Descontando-se a falta de contexto ao se comparar lugares tão diferentes, o filme repete a velha ironia do professor como um herói, como alguém que se doa por altruísmo, por vocação em ajudar o próximo. No fundo, uma estratégia tímida para atrair pessoas dispostas a ensinar pela via escolar.
Ingênuos não são os que acreditaram no filme. Esses se encontram em estado vegetativo. Ingênuos são os que se surpreenderam quando o Ministério da Educação informou – em tom de cinismo – que faltam professores no país. O déficit de docentes tende a crescer.
Em outras palavras, professor não fica desempregado. Mas que não se meta a discutir condições de trabalho, seja com o gestor público ou com o patrão da escolinha do bairro. Pôxa, recebe todo mês para DAR aula!
A pergunta óbvia: - Por que largou?
A resposta imediata: - Desisti!!! Não dá para trabalhar à noite sob ameaças dos alunos.
Dois dias depois, uma aluna de Jornalismo veio me procurar para tirar dúvidas. Ela pretende fazer uma reportagem sobre Hiperatividade, doença da “moda” nos sistemas de ensino. Aqui vale uma explicação: uso a palavra moda por duas razões.
1) o termo foi banalizado. Muitos falam sobre a doença sem ter a menor ideia dos sintomas e do tratamento. Qualquer criança mais agitada, bagunceira ou que deseja um pouco mais de atenção pode ser classificada como hiperativa. O carimbo na testa que a tornará marginal na escola.
2) as escolas, além de não terem pessoas com formação – em muitos casos – para diagnosticar crianças com problemas de aprendizagem, não as encaminha para um profissional competente. Quando não ocorre o exercício da negação, por meio do acordo velado entre instituição e pais para preservar da imagem da escola.
A aluna estava com dificuldades de conversar com escolas privadas sobre o tema. As equipes pedagógicas relutavam em reconhecer que poderiam ter crianças com o problema em suas classes. Quando admitiam, transferiam a culpa para os pais. No beco sem saída, tocar no assunto significa automaticamente o estigma. Desconfio que o parecer talvez fosse exercício de auto-imagem.

Escolas públicas e privadas são irmãs gêmeas diante de um espelho. Podemos localizar diferenças nos acessórios, nas roupas e, principalmente, na maquiagem, mas ambas sofrem de males semelhantes, diagnosticados por médicos diferentes e com poses idênticas de vítimas.
- Tire esse bicho daí que o problema não é meu!
- O diagnóstico está errado. Vou procurar uma segunda opinião.
Neste sentido, a escola se manifesta pela rejeição ao diferente. Expulsa o sujeito que tenta lutar contra o estado de coisas. Repele quando esconde embaixo de suas carteiras, em seus armários, disfunções que poderiam servir de motor para uma reformulação estrutural.
Em ambos os casos, com mensalidades em caixa ou não, a escola é violenta. Enxota o professor e outros funcionários por se calar diante da violência verbal e física, interna e externa. Peca ao se calar diante de um problema de ordem médica para assegurar o status quo de instituição saudável. Omitir-se é um ato tão ou mais violento quanto assinar embaixo. Ou tomar posição com consciência do erro crasso.

O irônico da cegueira é a teimosia em fingir que enxerga. São muitos pecadores, mas poucos dispostos a se confessar ou se flagelar para “purificar” a escola. O sarcasmo, a acidez na provocação vem, por exemplo, do próprio Ministério da Educação, quando escancara na TV um filme institucional sobre o papel do professor. O tom alegre era previsível, assim como o falso simbolismo globalizante dos depoimentos em vários idiomas.
Descontando-se a falta de contexto ao se comparar lugares tão diferentes, o filme repete a velha ironia do professor como um herói, como alguém que se doa por altruísmo, por vocação em ajudar o próximo. No fundo, uma estratégia tímida para atrair pessoas dispostas a ensinar pela via escolar.
Ingênuos não são os que acreditaram no filme. Esses se encontram em estado vegetativo. Ingênuos são os que se surpreenderam quando o Ministério da Educação informou – em tom de cinismo – que faltam professores no país. O déficit de docentes tende a crescer.
Em outras palavras, professor não fica desempregado. Mas que não se meta a discutir condições de trabalho, seja com o gestor público ou com o patrão da escolinha do bairro. Pôxa, recebe todo mês para DAR aula!
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